25 novembro 2009

Quase esquecera a dor. Abriu os olhos, fitando O'Brien com gratidão. Ao ver aquela face rude, sulcada de rugas, tão feia e tão inteligente, deu-se uma reviravolta no seu coração. Se pudesse mexer-se teria estendido a mão para a pousar no braço de O'Brien. Nunca a afeição que lhe tinha fora tão profunda como naquele momento, e não apenas por ter interrompido o seu sofrimento. Voltava à sua antiga sensação de que, no fundo, tanto fazia sazer se O'Brien era amigo ou inimigo. Com O'Brien podia-se falar. Talvez uma pessoa preferisse ser compreendida e amada. O'Brien torturara-o até ao limiar da loucura e, o mais certo, dentro em breve condená-lo-ia à morte. Mas isso nao tinha importância. Num certo sentido, mais profundo do que a amizade, eles eram íntimos: embora as palavras talvez nunca viessem a ser efectivamente pronunciadas, existia algures um lugar onde poderiam encontrar-se e conversar. O'Brien olhava-o com uma expressão em que se adivinhava ter-lhe ocorrido exactamente o mesmo pensamento. Quando voltou a falar, fê-lo com a ligeireza de uma conversa amena.

mil novecentos e oitenta e quatro de George Orwell

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