Ela a dizer:
- Não sejas parvo.
Ela está deitada no chão, completamente nua, de costas para cima. Romeu tem apenas cuecas. Na mão segura um baralho de cartas. Ela tem uma camisa debaixo dos seios e ele está sentado, ao lado dela. Agora mesmo ele acabou de dizer:
- Vou fazer um jogo de cartas nas tuas costas. Se, no final, a carta que ficar for um ás de copas é porque tu me és fiel. Se for um ás de espadas é porque me és infiel. E a espada representa sangue, já sabes.
Julieta murmurou:
- Não sejas parvo.
- É uma maneira de não me mentires - prosseguiu Romeu, em tom de gozo. - Estás nua e de costas para o jogo; não me podes mentir. É a melhor maneira de sabermos a verdade.
- Não sejas estúpido.
Romeu começou a pôr cartas viradas para baixo nas costas de Julieta. Esta resistiu, yorceu as costas, deitou abaixo as cartas:
- Não sejas parvo. Estás a ser imbecil. Se queres saber alguma coisa, pergunta-me, que eu respondo. Não te ponhas com jogos nojentos.
Romeu cala-se durante uns segundos e deixa que ela se acalme.
Depois diz:
- Ok, só um jogo nas tuas costas; uma paciência.
Ela não reage, fecha mais os braços, as mãos deitadas sobre a cara. Fecha os olhos, desiste de reagir, de pensar, de resistir.
Romeu vai pondo cartas nas costas de Julieta. Põe o baralho todo, dividindo-o em grupos, colunas, linhas. Estão todas viradas para baixo.
Faz contas, vai tirando cartas, virando-as; dividindo-as, depois as que ainda restam em cima das costas por grupos mais reduzidos. Levanta mais cartas; sobram agora cinco nas costas de Julieta; Julieta que se mantém indiferente, olhos fechados, quase a dormir, desinteressada.
Por fim, Romeu levanta quatro das últimas cartas e pousa-as no chão. Resta uma. Mantendo a carta virada para baixo, ele puxa-a para junto da nuca de Julieta.
Depois vira-a.
É um ás de espadas.
Um ás de espadas junto à nuca de Julieta.
por Gonçalo M. Tavares em "A bicicleta"
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